Você já passou por um momento na relação em que não sabia se continuava investindo nela ou se desistia de vez?
Outro dia, estávamos conversando aqui sobre como os deuses aparecem para nós na nossa vida amorosa, e lembrei de uma pergunta que uma seguidora fez no Instagram sobre isso. Decidi trazer para cá, porque casa muito bem com esse assunto de deuses e deusas que a gente tem conversado por aqui nos últimos tempos.
“Como decidir se fico ou não numa relação onde o rapaz está muito no aspecto da criança ainda? A relação em si é boa, mas não sinto confiança num futuro com ele por não vê-lo como um homem alfa!”
Aqui temos que prestar atenção em uma coisa: ela está nos contando de dois arquétipos MUITO diferentes. Descobrir os deuses/deusas em ação nele pode ajudar bastante a respondermos isso aí.
Existe uma diferença entre ESTAR num estado mais imaturo da caminhada e de vivenciar continuamente esse estado pueril. Para não confundir com a Criança Interior, chamamos de puer. Eterno Adolescente. Peter Pan.
Como saber a diferença? Vou falar aqui como amiga, tá? Vou tomar o partido da seguidora, afinal estamos aqui para facilitar a vida DELA (e não a dele). O que também pode ajudar você que está lendo esse texto agora.
Duas coisas para observar: vontade e microatitudes.
Ele tem vontade de assumir maiores responsabilidades? Fala do trabalho, e o olho brilha quando se refere a um cargo de chefia? Ou de ser independente financeiramente, dono do seu próprio nariz?
É muito rico observar como o outro se relaciona com as responsabilidades. Olhe as coisas pequenas, não as grandes.
Como dizem, o diabo está nos detalhes.
Quando a família pede algo, ou alguém pede algo, ele se sente orgulhoso de receber essa responsabilidade? Ou encara aquilo como mais um fardo?
Porque veja, isso é algo que começa cedo. Eu acho lindo ver como as crianças adoram receber responsabilidades.
A responsabilidade da Sassá, minha filha, aqui em casa é não deixar o Mika, nosso gato, fugir. Sempre que alguém abre a porta, ela corre para ver se ele não foi para fora. Se ele sai, ela vai atrás e traz de volta. Toda orgulhosa, de peitinho estufado.
Falei para ela que na nossa mudança de casa ela vai ter uma tarefa muito especial. Enquanto mamãe e papai cuidam das caixas, ela precisa ficar de olho no Mika. É uma casa, tudo aberto. Então ela já está se preparando (e se achando). É muito legal.
Outro lugar em que eu passei a perceber isso com muita clareza foi na preceptoria da residência.
Todos os residentes que entravam eram jovens e inexperientes, isso é super normal. Mas havia aqueles que desde o primeiro dia gostavam de receber responsabilidades. E aqueles que odiavam.
O ponto de partida era o mesmo. No final de três anos de residência, a diferença entre esses dois perfis se tornava gritante.
Se o seu namorado (ou namorada, ou estagiário… enfim, isso vale como um todo) gosta de assumir essas pequenas responsabilidades no dia a dia, do tipo ajudar o vizinho a carregar um pacote pesado, ou resolver algum B.O. do amigo, sei lá, o amadurecimento é uma questão de tempo.
Não estou falando de ser pró-ativo ou atrapalhado. Estou falando do prazer da pessoa ao receber uma função de maior responsabilidade.
Se for o caso de: “Ah, não é assim. A responsabilidade é vista com maus olhos. Traz desconforto. Ele tenta “delegar” o máximo que pode.” Bom, aí sim, vamos ver o arquétipo.
Podemos estar frente a um puer que está muito satisfeito exatamente onde está, e só vai amadurecer com a vida dando seus chutes. É um caminho mais longo e tortuoso.
Falando como AMIGA: o perrengue de acompanhá-lo nos chutes da vida vai ser, evidentemente, bem maior.
Agora vamos ao que sabemos de deuses. O puer, o Peter Pan que não quer crescer de jeito nenhum, costuma ser um desses dois deuses: Dioniso ou Hermes.
Dioniso é um amor de pessoa, ótima companhia. É ligado ao prazer, às coisas boas da vida. Gosta de música, de viver a vida intensamente. Lado negativo: vive o hoje, gasta tudo hoje, come tudo hoje, e esquece que tem o amanhã.
Hermes faz o tipo mais espertinho. Ele se vira super bem, mas se tiver alguém que faça por ele, ele dá uma de João-sem-braço.
Aqui preciso abrir um parêntese: não são todos os Dionisos e Hermes que são assim. Há expressões muito maduras desses deuses. Só que QUANDO é pueril, se encaixa num desses dois.
É a eterna luta de Peter Pan contra o Capitão Gancho. O gancho da vida prática, das responsabilidades afetivas, dos boletos, que impedem de sair voando por aí.
MAS temos que ver a outra parte da pergunta: ela mencionou um homem “alfa”. Aí temos MAIS um componente, totalmente diferente.
Estou falando de uma relação hétero-cis como exemplo, mas isso se aplica de uma forma geral.
Um homem maduro e resolvido não necessariamente é “alfa”. E um homem “alfa” não é necessariamente maduro e resolvido. O que exatamente você quer?
Homem “alfa”, da forma como essa expressão é utilizada, é aquele que faz questão de ser a parte dominante na relação. Seria, por exemplo, um Zeus.
Ele provê financeiramente (e não necessariamente emocionalmente). Ele toma as decisões finais, “assume as rédeas”.
Tá, mas e se você achar que a forma que ele está assumindo as tais rédeas é uma bela de uma cagada? Bom, aqui está o problema desses “alfas”, não esqueça disso.
Um “alfa” pode muito bem se afundar em dívidas, por exemplo, e você só ficar sabendo tarde demais.
Por que eu falo isso? Porque tem-se uma ideia de “alfa” como o CEO sexy e bem resolvido dos livrinhos estilo 50 tons de cinza. E na verdade não é bem assim.
E aqui pode surgir uma outra pergunta: desejar um “alfa” não seria um aspecto puer na mulher?
Aqui vale a pena passarmos pelos arquétipos que essa mulher tem. Eu, por exemplo, tive um namorado “alfa” em todas as definições do termo. E se algum dia eu senti vontade de matar alguém, picar e cozinhar, e depois ressuscitar para poder matar de novo, foi ele.
Essa mulher que deseja um “alfa” pode ser uma Hera. Uma mulher ligada ao status quo, e ter um homem provedor, que tome a frente etc, é algo quase essencial para ela.
Não é exatamente que ela seja uma puella (sim, esse é o feminino de puer. Bonito, né?). São necessidades insatisfeitas dela, e ela vai precisar trabalhar bem isso para não trocar gato por lebre.
Ou então ela pode ser uma Coré. Essa sim é puella até o dedo do pé. Ela faz de tudo para não tomar decisões, para não ter que carregar o fardo dos seus erros. Se alguém decidir por ela, tanto melhor.
Mas também tem uma terceira possibilidade: pode ser simplesmente uma mulher sobrecarregada, independente do arquétipo.
Isso eu vejo bastante. A sobrecarga feminina é IMENSA, muito maior que a masculina. E aí ela pode achar que um homem que tome as decisões SOZINHO vai diminuir a sobrecarga dela, que a vida dela vai ficar mais fácil.
E, na prática, isso dificilmente se concretiza. Nessa dinâmica, o homem continua tomando suas decisões, e ela continua sobrecarregada. Só muda um pouco onde cai a sobrecarga.
O que diminui a sobrecarga é abertura, diálogo, paciência e amadurecimento dos dois. Não conheço outro jeito.
Por isso é tão importante ter essa consciência de deuses e deusas na nossa vida. Cada situação vai ter um deus específico que precisa ser “invocado” ou “deixado de lado”, e ter esse conhecimento vai transformar sua vida.
Agora que você já sabe que existem padrões ocultos do seu inconsciente que podem influenciar seus relacionamentos, te inspirar ou bloquear aspectos da sua vida, chegou a hora de saber que padrões são esses que estão em ação! Qual deus/a está dando as caras por aí?

