Todo sonho tem mesmo um significado? Até aqueles que aparentemente não fazem o menor sentido?
Outro dia me deparei com um relato de um sonho de um famoso nas redes sociais, e alguns dos comentários na publicação eram: “eu achei que só eu tinha sonhos bizarros assim”, “que sonho maluco”, “e eu que achava que eu tinha sonhos aleatórios”, “essa noite sonhei com dinossauros e zumbis, mas esse aí ganhou”.
Se todo sonho realmente tem um significado, o que querem dizer esses sonhos que a gente não entende absolutamente nada?
Aí vai uma estratégia super útil nessas horas: quando o sonho traz algo “impossível” de acontecer na vida prática, essa é uma das mensagens para você levar em consideração: esse acontecimento “impossível” do sonho é para ser entendido de forma simbólica.
Vamos supor que você sonhou que a sua casa foi inundada pelo mar. “Puxa vida, será que o sonho está me avisando que isso realmente vai acontecer?” Mas daí no meio desse mar, aparece uma baleia. Ah, daí já é demais. Muito difícil de acontecer na vida real.
Então é simbólico. Aí, o sonho está falando de suas emoções, não de um cataclisma.
Agora, como fazer essa interpretação simbólica? Quer dizer que para decifrar sonhos é importante ter uma boa bagagem de estudo sobre mitologias, símbolos de diferentes culturas? Ou as associações já bastam pro essencial na interpretação?
Bom, é exatamente como uma nova língua. Se você for pros EUA e só souber aquelas frases chave em inglês, tipo “I’m lost”, você se vira. Não vai entabular conversas profundas, mas se vira.
Com os sonhos é a mesma coisa. Dá para se virar só com as associações. São respostas pobres e mais superficiais, mas é melhor do que nada.
Mas quanto mais você souber de simbologia, mais você consegue perceber. São as nuances, as sutilezas. Os “mas, contudo, todavia” da conversa.
E já que entramos nesse assunto, eu tenho uma pergunta muito importante para você, bem honesta: quantos livros você leu no último mês? Que não seja de trabalho ou coisas do tipo “como ser feliz”, “como ser mais produtivo” etc. Que seja literatura mesmo, fantasia.
Quantas exposições de arte você viu? Quantas peças de teatro você foi? Você conhece muitos ditados populares e o que significam? Muitas lendas e contos da floresta? Muitas histórias regionais de se contar à noite para as crianças?
Sabe por que eu pergunto isso? Porque é aí onde você ganha repertório simbólico. Com livros de aventura, fantasia, romance. Com arte, teatro, drama!
Eu não considerei Netflix porque, apesar de o cinema, sim, ser arte, também pode ser um monte de aleatoriedades, que estão passando ali na tela e você nem está prestando muita atenção.
Essa reflexão é importante para percebermos o quanto nós somos (ou não) realmente incentivados a consumir material simbólico. Leitura, fantasia, o mágico, o lúdico.
A maioria, quando fala que lê, está falando de livros para “ganhar conhecimento”. Sobre investimentos, sobre como ser feliz, ou a análise acadêmica de tal coisa. Viajar nas páginas, se emocionar numa ópera, parece “secundário”, para fazer quando “sobrar tempo”.
O material simbólico virou um cidadão de segunda classe, né?
E aí, sempre que falo de sonhos, me pedem dicionários de símbolos. Que até vale a pena ter, eu tenho. Mas você vai aprender MUITO mais simbologia lendo Harry Potter e Senhor dos Anéis, por exemplo.
Então, o primeiro passo para darmos vida aos nossos sonhos e termos repertório para entendê-los, é com algo que sempre foi essencial ao homem: histórias ao redor da fogueira, contos, mitos, lendas. Desde tempos imemoriais. Provavelmente somos uma das fases da humanidade mais pobres de conteúdo simbólico.
Para você ter ideia, um tempo atrás, eu travei contato com um estudante universitário que não conhecia o significado de um ditado popular super simples. Universitário! Como que um estudante que não entende as analogias e metáforas de um ditado popular vai entender um sonho? Nunca, né?
Nessas horas, eu acho muito interessante ver os “universitários letrados da cidade grande” fazendo pouco caso dos “pobres ignorantes” das vilas e aldeias rurais do interior.
Eu digo interessante porque, via de regra, essas comunidades têm muito mais repertório simbólico. Compreendem muito mais fácil um ditado, ou um sonho. Aliás, quem não conhece uma velha senhora que pode mal saber ler e escrever, mas conhece uma quantidade quase infinita de histórias?
Parece que quanto mais “longe da cidade”, mais mágico fica, não é? Já sentiu isso? A energia muda. Você consegue realmente esperar que apareça um saci-pererê logo depois daquela floresta.
Agora, sabe o que é mais legal? Uma das coisas que eu mais recebo dos alunos é como é PRAZEROSO voltar a esses assuntos. Símbolos, mitos, poemas. Fazer uma imaginação ativa, manter um diário sobre suas reflexões. A gente se acostuma tanto a fazer as coisas “por obrigação”, que leva um susto quando sai disso.
Porque veja, nossa sociedade nos ensina que prazer se resume a comer, beber, gastar, ter conforto material. Coisas que custam ou que não dependem só de nós, né? Coisas concretas. Mas quando saímos da caixa que nos foi colocada, vemos que isso não é verdade.
E por que eu falo tudo isso? Me perdoe se eu estiver sendo muito dramática, mas, para mim, o buraco é muito mais fundo. Não basta não termos aprendido quase nada sobre nós mesmos, ou sobre conteúdos internos tão essenciais como visões ou sonhos.
O sonho é só uma das linguagens do inconsciente. O simbólico está em cada momento das nossas vidas. Tudo é vivo. Tudo é fascinante.
Há uma pressão para ficarmos tão concretos, que vamos perdendo as bases para sequer entender isso. Aí começam os sintomas. Nos sentimos ansiosos, inquietos, para baixo. Um constante sentimento de vazio e de falta de sentido…
Claro, a despensa interior está vazia.
Qual é a chance de uma pessoa assim receber apenas um remédio e/ou um incentivo de “vamos, força, foco, concentre-se nos seus compromissos” e não examinar mais a fundo a CAUSA aquilo?
Então veja, não são os sonhos que são difíceis de entender. Nós é que não estamos acostumados com a linguagem deles. Mas à medida que a gente começa a mergulhar nesse universo, fica mais fácil compreender as mensagens que o inconsciente quer nos passar. Só é preciso dar o primeiro passo.
E aí, depois que a gente passa a pegar as “dicas” do inconsciente, economiza uma quantidade enorme de tempo e energia quando vai resolver os “pepinos” do dia a dia. O que levaria semanas, meses, até anos, pode ter solução em questão de dias. Porque ninguém tem melhores respostas do que o inconsciente.
Mas e você, como anda sua relação com os sonhos? Eles estão fáceis ou difíceis de entender?
